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Lula defende coerência progressista e alerta contra extrema-direita em Barcelona

Presidente brasileiro discursa para mais de 5 mil na Mobilização Progressista Global e critica neoliberalismo e concentração de riqueza.

18/04/2026 às 20:23
Por: Redação

Em uma visita à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na tarde de sábado, dia 18, em Barcelona, Espanha, da edição inaugural da Mobilização Progressista Global (MPG). Este encontro teve como propósito reunir ativistas e organizações de esquerda de diversas partes do mundo para defender a democracia com justiça social e enfrentar o avanço das ideologias autoritárias de extrema-direita.

 

Falando em um centro de eventos para uma audiência de mais de 5 mil pessoas, que incluía outros chefes de Estado, Lula iniciou seu discurso afirmando que as pessoas não devem sentir receio em se identificar como progressistas ou de esquerda no cenário global atual.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

 

Ao elencar os avanços conquistados pelo campo progressista em favor de grupos sociais como trabalhadores, mulheres, população negra e a comunidade LGBTQIA+, o presidente ressaltou que a esquerda falhou em superar o modelo econômico dominante. Essa falha, segundo ele, abriu espaço para que forças reacionárias ganhassem proeminência na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

O chefe de Estado brasileiro enfatizou que a coerência deve ser o princípio fundamental para os progressistas. Ele detalhou que não é aceitável ser eleito com um programa e implementar outro, nem trair a confiança da população. Lula argumentou que, mesmo que grande parte das pessoas não se veja como progressista, elas almejam condições como uma boa alimentação, moradia adequada, acesso a escolas e hospitais de qualidade, uma política climática e ambiental séria e responsável, um planeta limpo e saudável, e trabalho digno com jornada equilibrada e salário confortável.

 

Conforme a análise de Lula, a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Ele explicou que essa corrente política direcionou a frustração da população através da disseminação de mentiras, atacando mulheres, negros, a comunidade LGBTQIA+, e imigrantes, transformando esses grupos mais vulneráveis em alvos de discursos de ódio.

 

Anteriormente, no mesmo sábado em Barcelona, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, junto a outros líderes internacionais. Essa iniciativa, lançada em 2024, envolve os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; além do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Dirigindo-se aos ativistas progressistas presentes, Lula defendeu que a responsabilidade pela crise socioeconômica atual recai sobre o pequeno número de bilionários que detêm a maior parte da riqueza global. Ele criticou a forma como esses indivíduos promovem a "falácia da meritocracia" ao mesmo tempo em que dificultam o acesso de outros a oportunidades. Segundo o presidente, eles pagam poucos ou nenhum imposto, exploram trabalhadores, devastam o meio ambiente e manipulam algoritmos. Lula concluiu que a desigualdade não é um acaso, mas uma decisão política, e ser progressista significa optar pela igualdade, sempre ao lado do povo.

 

O papel das nações no cenário global

 

O presidente Lula reiterou sua crítica aos líderes dos países que ocupam assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele condenou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, em sua visão, poderiam ser direcionados para erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir o acesso universal à saúde.

 

Lula apontou que o Sul Global arca com as consequências de conflitos que não provocou e das mudanças climáticas que não causou. Essa região, conforme sua fala, é tratada como uma área secundária pelas grandes potências, sofrendo com tarifas abusivas e dívidas impagáveis, e sendo vista meramente como fornecedora de matérias-primas. Para o presidente, ser progressista no cenário internacional implica defender um multilateralismo reformado, priorizar a paz sobre a força, combater a fome, proteger o meio ambiente e restaurar a credibilidade da ONU, que foi comprometida pela irresponsabilidade de seus membros permanentes.

 

Lula enfatizou que a ameaça representada pela extrema-direita não se restringe à retórica, sendo uma realidade concreta. No Brasil, ele citou que essa corrente política orquestrou um golpe de Estado, planejando uma conspiração que incluía tanques nas ruas e atentados contra o presidente eleito, o vice-presidente e o presidente da Justiça Eleitoral. O presidente citou ainda uma observação atribuída ao Papa Leão XIV, segundo a qual a democracia corre o risco de se tornar uma fachada para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Lula afirmou que o papel dos progressistas é desmascarar essas forças e aqueles que se dizem a favor do povo, mas governam em benefício dos mais ricos.

 

O líder brasileiro também destacou que a democracia não é um ponto final, mas exige reafirmação contínua e melhorias tangíveis na vida das pessoas para manter sua credibilidade. Ele exemplificou a ausência de democracia em situações como a de um pai que não sabe como alimentar a família, um neto que perde o avô na fila de um hospital, uma mãe que enfrenta horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos filhos, ou quando alguém sofre discriminação pela cor da pele, e quando uma mulher é morta apenas por seu gênero. Lula concluiu com um apelo para que o desalento seja substituído pelo sonho, e o ódio pela esperança.

 

Próximos compromissos na Europa

 

Após seus compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo, dia 19. No país, ele participará da Hannover Messe, reconhecida como a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição presta homenagem ao Brasil. Ainda na Alemanha, o presidente brasileiro tem agendada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem presidencial europeia será encerrada no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Na capital, Lisboa, Lula encontrará o primeiro-ministro Luís Montenegro e o presidente António José Seguro.

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