Durante uma entrevista concedida ao jornal espanhol El País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou críticas contundentes à postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especificamente quanto às ameaças dirigidas ao Irã, Cuba e Venezuela. Lula argumentou que nenhuma nação possui o direito de ameaçar outras devido a divergências políticas, afirmando que a Casa Branca não está autorizada a adotar tal comportamento.
“O Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país. Não tem direito. Ele não foi eleito para isso. O mundo não lhe dá direito disso. A Constituição americana não garante isso. E muito menos a carta da ONU [Nações Unidas]”, afirmou Lula.
Segundo o presidente brasileiro, nenhum Estado possui permissão para violar a integridade territorial nem a soberania de outros, reforçando a necessidade de respeito mútuo entre as nações.
“Nenhum país tem direito de ferir a integridade territorial de outro país. Nenhum país tem o direito de não respeitar a soberania dos outros países”, completou.
Lula ressaltou que, em sua visão, há escassez de lideranças mundiais comprometidas em reconhecer que o planeta não pertence exclusivamente a uma única potência. Segundo ele, as principais nações precisam assumir maior responsabilidade na promoção da paz internacional.
Na semana anterior à entrevista, Donald Trump chegou a declarar a intenção de cometer um crime de genocídio contra o Irã, caso o país rejeitasse os termos propostos pelos Estados Unidos para a resolução do conflito no Oriente Médio.
O presidente Lula também abordou as implicações de uma possível terceira guerra mundial, avaliando que um conflito desse porte traria consequências dez vezes mais graves do que a Segunda Guerra Mundial.
“Uma terceira guerra mundial será uma tragédia dez vezes mais potente do que foi a tragédia da Segunda Guerra Mundial”, afirmou.
Ao ser questionado sobre a possibilidade real de um novo conflito global, Lula declarou que, se persistir a lógica de que qualquer país pode agir militarmente sem restrições, o risco se tornaria concreto.
“Se continuarem achando que podem levantar de manhã e atirar contra qualquer um, ela pode acontecer”.
Em relação a Cuba, Lula criticou o reforço do bloqueio energético promovido pelos Estados Unidos, que se soma ao embargo econômico imposto há quase sete décadas. O presidente classificou Cuba como um país de grande valor para o Brasil e questionou as justificativas para a manutenção desse bloqueio ao longo de 70 anos.
Lula também mencionou o Haiti ao comparar a ausência de preocupação internacional em relação à crise humanitária e social haitiana com a atenção dada a Cuba. Ele observou que, apesar do Haiti não possuir regime comunista, enfrenta há décadas dificuldades severas, incluindo o domínio de gangues armadas sobre grande parte de Porto Príncipe.
Ainda sobre Cuba, o presidente declarou ser fundamental que a ilha tenha oportunidades para superar desafios internos, destacando que o bloqueio dificulta o acesso a alimentos, combustível e energia, prejudicando a sobrevivência da população local.
Lula comentou sobre a situação venezuelana, reiterando o posicionamento do governo brasileiro no sentido de defender a realização das eleições previstas para julho de 2024 e o reconhecimento do resultado eleitoral, com o objetivo de que o país vizinho possa retomar a paz interna.
O presidente criticou a percepção de que os Estados Unidos poderiam administrar a Venezuela, reforçando a necessidade de respeito à autodeterminação dos povos.
Ao mencionar as tarifas implementadas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras entre abril e agosto de 2025, Lula relatou o conteúdo de sua conversa com Trump, destacando que não buscava alinhamento ideológico, mas sim a defesa dos interesses nacionais de ambos os países nas relações bilaterais.
Após negociações realizadas entre os governos de Brasília e Washington, em novembro de 2025, os Estados Unidos suspenderam uma tarifa de 40% que incidia sobre diversos produtos brasileiros, incluindo café e carne. Em fevereiro do ano seguinte, a Suprema Corte dos Estados Unidos anulou a tarifa ampliada que havia sido imposta por Trump a dezenas de países, atendendo a demandas de empresas estadunidenses prejudicadas pelas medidas.