A cantora Alice Caymmi concretizou um projeto que idealizava há três anos: a criação de um álbum dedicado à obra de seu avô, Dorival Caymmi. A artista buscou uma abordagem inovadora para apresentar o vasto repertório do compositor baiano a novas gerações, explorando diferentes gêneros musicais no disco intitulado “Caymmi”. Essa iniciativa representou um desafio de grande responsabilidade para Alice, que também aproveitou a oportunidade para refletir sobre sua própria trajetória e suas raízes familiares.
Alice Caymmi destacou o desejo de seu avô de ser amplamente conhecido e acessível ao público, um traço marcante da família. Ela recordou as palavras de Dorival, que valorizava a presença de todos os tipos de pessoas em seus shows.
“Meu avô queria ser ouvido, estar na boca do povo. Quando estava fazendo um show gostava quando sabia que vinha a faxineira, o segurança e o pessoal da cozinha assistir. Era aí que se sentia contemplado e amado. A atenção que ele dava era impressionante”
A cantora explicou à Agência Brasil que sua família repudia a arrogância artística e a falta de comunicação com o público. Esse valor, segundo ela, é profundamente enraizado em sua linhagem.
“Existe um valor dentro da minha família muito forte nesse sentido. O público é muito importante. Meu avô dizia que queria ser o feliz autor de Ciranda Cirandinha. Acabou que foi o autor de canções que se equiparam a Ciranda Cirandinha”
Seguindo essa perspectiva de popularidade, Alice desenvolveu o álbum com a produção do baterista Iuri Rio Branco, sob o selo Daluz Música. A intenção era resgatar uma imagem popular de Dorival Caymmi, que, segundo ela, não era vista há muitos anos. “Ele queria ser visto assim e há muitos anos Dorival não é visto dessa maneira popular. Quis trazê-lo para esse lugar”, afirmou.
Alice expressa confiança de que o público mais jovem acolherá bem o trabalho, pois considera Dorival um artista das massas e da juventude. Ela acredita que parte da nova geração, que ainda não conhece a obra do avô, pode inicialmente pensar que as composições são dela.
“Dorival é tão atemporal, tão eterno, tão simples e preciso, tão maravilhoso que muita gente vai ouvir e ver este disco, vai ver Caymmi e pensar ‘é o nome dela’ e não vai se ligar que é um disco em homenagem a Dorival. Vai gostar do disco pelas canções lindas que ele tem”
A cantora acrescentou que, após esse primeiro impacto, ficará evidente para esse público que as composições são de Dorival Caymmi.
Para evitar que a seleção das músicas se tornasse um processo árduo, Alice optou por uma abordagem descontraída, escolhendo as faixas ao longo da produção do disco. Ela revelou que o principal objetivo, em parceria com Iuri, era se divertir.
“Acho que, de maneira geral, o que mais procurei fazer com o Iuri foi me divertir para que a gente pudesse olhar para a obra do meu avô de uma uma forma totalmente descontraída, diferente, alegre e natural”, explicou.
Desde o início, a cantora tinha em mente a criação de um disco com sonoridade mais solar e que explorasse diversos gêneros musicais. O formato final foi se delineando durante as sessões com o produtor. Alice enfatizou a importância do trabalho em equipe e da boa relação com o produtor para o sucesso do projeto. “Para mim, é muito importante trabalhar em grupo, a dupla funcionar, a minha relação com o produtor funcionar e ser boa. A gente foi escolhendo ao longo do processo”, comentou, elogiando a sintonia da dupla no estúdio.
Alice rasgou elogios a Iuri Rio Branco, com quem já havia colaborado anteriormente. “Ele é um gênio da música, um dos maiores que já vi em ação. Foi e está sendo um prazer imenso trabalhar com ele”, afirmou.
A percepção de alguns críticos musicais de que a obra de Dorival Caymmi é “definitiva” e “irretocável” serviu como um grande estímulo para Alice buscar novas interpretações para as canções do avô.
“É uma coisa que me move muito e essa de ‘não pode’ me comove bastante. Não fui diagnosticada, mas com quase certeza, tenho o que se chama Transtorno Opositor Desafiador, POD. Não posso ver um negócio que não pode, que eu preciso fazer”, declarou a cantora.
Ela sempre soube que, em algum momento, faria uma releitura da obra de Caymmi, mas não imaginava que seria dessa maneira. “Quando se diz que a obra do Caymmi é irretocável e impossível de se reler e de se refazer, é aí que faço questão mesmo. Sempre soube que em algum momento eu ia fazer isso, só não sabia que ia ser assim”, concluiu.
A escolha de “Modinha para Gabriela” como a primeira música a ser lançada do álbum foi estratégica para Alice Caymmi. A canção, amplamente conhecida por ter sido trilha sonora de novela televisiva, serve como um atrativo para as demais faixas do disco. A cantora aprecia a forma como a personagem se apresenta na letra, declarando sua essência.
“É um grito de liberdade feminino muito bonito e também muito delicado e especial. Nessa fase da minha vida me vejo muito nesse lugar. É uma boa música para apresentar um disco e dizer ‘olha eu sou assim. Faz sentido. É uma letra que puxa isso. Uma apresentação”
Além de “Modinha para Gabriela”, o álbum dedicado a Dorival Caymmi inclui releituras de outras canções icônicas, como “Maracangalha” e “Dois de Fevereiro”.
Fazer parte de uma família com nomes tão proeminentes na música brasileira – como o avô Dorival, a avó Stela Maris, a tia Nana, o tio Dori e o pai Danilo Caymmi – não intimidou Alice, nem representou um obstáculo para desenvolver seu trabalho da forma desejada. “Seria muito difícil se eu abraçasse a dificuldade, se eu entrasse nessa pilha, mas decidi não entrar nisso agora”, ponderou.
A cantora citou uma frase do rapper Tyler, The Creator – “crie como uma criança e edite como um cientista” – que prega a liberdade na criação, e afirmou ter seguido esse princípio à risca.
“Eu quis criar como uma criança. Perdi todas as amarras. Eu chamei o Iuri por isso. Ele é muito corajoso. Uma coragem quase inconsequente”
Alice Caymmi descreve uma profunda conexão com seu avô, sentindo sua presença constante, e este projeto não foi exceção. Um exemplo dessa ligação foi a escolha de Iuri para a produção do álbum, que, segundo ela, foi confirmada por meio de um raríssimo jogo de búzios, onde 28 búzios estavam abertos e apenas um fechado. O resultado surpreendeu até o pai de santo, que nunca havia presenciado algo semelhante. Conforme a cantora, essa configuração no jogo é chamada de Aláfia-Onan, uma expressão iorubá que significa “caminhos abertos para a paz ou para a prosperidade”.
“A gente ficou rindo porque é um jogo raríssimo e eu falei ‘tá bom vô’, porque meu vô é muito presente. Ancestral na minha religião é uma entidade presente na vida da gente. Meu vô fala comigo tranquilamente por meio de várias vias. Toda vez que ele tem oportunidade dá um alô e as pessoas ficam apavoradas”, relatou Alice.
Ela acrescentou que Iuri já testemunhou eventos semelhantes e compreende a confirmação total. “O Iuri já viu umas coisas dessas assim acontecendo. Ele sabe que a confirmação é total. Além de a gente já ter trabalhado, ter dado tudo certo e eu já admirá-lo, o vovô aprovou de um jeito louco”, disse, sorrindo.
“Até do outro lado ele continua sendo um homem muito simples e de poucas exigências. A única coisa que ele quer é a música”
As futuras apresentações de Alice Caymmi pelo país serão integralmente baseadas no repertório do novo álbum. “É o show, totalmente, focado neste disco. A ideia é mergulhar, promover e fazer ele ser visto, ouvido e dançado na rua. É um disco muito interessante neste sentido e acho que vai funcionar”, finalizou a cantora.