O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, estiveram reunidos em Hannover, na Alemanha, na última segunda-feira, 20 de abril. Esta foi a terceira vez que ambos se encontraram desde o ano de 2023. Durante a visita oficial, Lula realizou um discurso na abertura da Hannover Messe, reconhecida como a maior feira industrial do mundo, cuja edição deste ano destacou o Brasil. O presidente também participou de um encontro com empresários brasileiros e alemães, ressaltando perspectivas no segmento de biocombustíveis.
A reunião bilateral resultou na assinatura de acordos de cooperação abrangendo múltiplas áreas. Após o encontro, Lula e Merz concederam entrevista coletiva em que discutiram a conjuntura internacional de instabilidade, ressaltando a preocupação com a guerra no Oriente Médio. Também se manifestaram sobre o risco de intervenção militar norte-americana em Cuba, hipótese alimentada por ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula reafirmou não enxergar justificativa para o atual conflito na região do Oriente Médio e criticou o papel da Organização das Nações Unidas (ONU), que, segundo ele, tem se ausentado de esforços diplomáticos eficazes para conter a instabilidade global.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", declarou Lula.
O presidente brasileiro também mencionou o conflito da Ucrânia, destacando que a perspectiva de paz naquele território parece cada vez mais distante.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", afirmou Lula.
Ao responder questionamento de jornalistas, Friedrich Merz informou ter solicitado a realização de uma reunião extraordinária nas Nações Unidas para discutir possíveis soluções para os conflitos internacionais. Ele lamentou o fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, mencionando as repercussões econômicas mundiais decorrentes dessa situação, especialmente a elevação nos preços do petróleo.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", declarou Merz.
O chanceler destacou também que o restabelecimento da estabilidade energética mundial depende do término imediato do conflito.
Em relação a Cuba, Friedrich Merz afirmou não enxergar justificativa legal para qualquer tipo de intervenção estrangeira na ilha caribenha.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", argumentou o líder alemão, reiterando o apelo por alternativas diplomáticas.
"Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que tem sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou o chanceler.
Lula também reforçou sua oposição a intervenções unilaterais em Cuba, assim como em outras regiões, incluindo Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", declarou o presidente brasileiro.
Além disso, Lula condenou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, vigente há quase sete décadas, e alertou para os riscos da perpetuação da lógica de prevalência da força nas relações internacionais.
"Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo", concluiu Lula.
Durante a declaração conjunta à imprensa, Lula e Merz celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que passará a vigorar provisoriamente a partir do mês de maio.
"O Brasil foi e é um grande defensor do acordo UE-Mercosul. Fizemos parte daquele grupo que realmente insistiu que aquele acordo entrasse em vigor, então foi êxito em comum. E, entrando em vigor, vai fomentar cada vez mais nossa cooperação na área de tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura, energia", afirmou Merz.
De acordo com o presidente Lula, a entrada em vigor do acordo abre caminho para uma colaboração ampla, que contempla temas além do livre comércio, abrangendo proteção aos trabalhadores, direitos humanos e meio ambiente. Por outro lado, ele demonstrou preocupação com mecanismos europeus considerados unilaterais para cálculo de carbono, os quais, segundo ele, não levam em conta o baixo índice de emissões da produção brasileira baseada em fontes renováveis.
"Um acordo só se sustenta se há equilíbrio nas concessões feitas de parte a parte. Uma série de medidas adotadas pela União Europeia ameaçam, no entanto, desnivelar os pratos dessa balança. É legítimo impulsionar políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial, mas não é correto adotar métricas que não são fidedignas à realidade nem compatíveis com regras multilaterais", argumentou Lula.
Lula anunciou que Brasil e Alemanha formalizaram acordos de cooperação em diversas áreas, incluindo defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, bem como pesquisas relacionadas ao oceano e ao clima.
Atualmente, a Alemanha é a terceira maior economia mundial e ocupa o quarto lugar entre os parceiros comerciais do Brasil, com um intercâmbio de aproximadamente 21 bilhões de dólares em bens e serviços, segundo dados de 2025. Além disso, o país germânico está entre os principais investidores diretos no Brasil, com um estoque superior a 40 bilhões de dólares.
Friedrich Merz manifestou interesse em aprofundar a cooperação com o Brasil para o desenvolvimento do setor de minerais críticos, considerados estratégicos para a produção de tecnologias modernas, defesa e transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas. O chanceler frisou que a disponibilidade desses materiais enfrenta riscos de escassez e concentração de fornecimento, destacando que o Brasil possui uma das maiores reservas mundiais dessas matérias-primas.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso e uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", declarou o alemão.
Lula, por sua vez, enfatizou que o objetivo nacional é ampliar a atuação tecnológica nacional, evitando limitar a participação brasileira à exportação dos minerais.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
Os dois líderes também abordaram a possibilidade de parceria no setor de biocombustíveis, destacando o potencial dessa matriz energética para a descarbonização do transporte.
"Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora da Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis. Eles são uma opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte. Com o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de florestas", afirmou Lula.
Friedrich Merz reforçou a importância dos investimentos em combustíveis renováveis como estratégia para ampliar a diversidade energética.
"Tem um caminhão no stand da feira [de Hannover] movido a biocombustível. Sabemos que, no Brasil, essa tecnologia avançou muito e demonstra que nós podemos aprender com o Brasil também", declarou o chanceler.