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Artesãos criam réplicas de monumentos e ressignificam Brasília

Produção artesanal em miniatura mantém viva a memória e valoriza a cultura dos migrantes em Brasília

21/04/2026 às 14:26
Por: Redação

Todos os dias, às 3h da manhã, Agnaldo Noleto inicia sua rotina no ateliê situado em sua residência em Santo Antônio do Descoberto, município goiano a mais de 50 quilômetros de Brasília. Utilizando óculos de proteção e máscara, seleciona criteriosamente insumos como resina, madeira e tinta para confeccionar miniaturas de monumentos emblemáticos da capital federal, cidade pela qual desenvolveu grande apreço.

 

Brasília, ao celebrar 66 anos, passa a caber nas mãos do artesão, que se dedica a criar, montar, lixar e pintar as peças, enquanto a cidade também ocupa espaço em seus pensamentos.

 

Semanalmente, Agnaldo produz aproximadamente 850 miniaturas, à venda em feiras locais. Esses trabalhos transformam-se em lembranças procuradas tanto por turistas quanto por moradores. Para Agnaldo, cada pequena réplica de monumento ou palácio carrega um significado que transcende o tamanho físico, sendo a Catedral de Brasília, projetada por Oscar Niemeyer, sua maior fonte de inspiração – tanto pela atualidade quanto pelas memórias que evoca em suas criações matutinas.

 

O contato inicial de Agnaldo com a Catedral foi durante sua adolescência, quando, ao chegar de Riachão (Maranhão) em 1980, começou a vigiar carros no estacionamento da igreja. Na época, Brasília completava apenas duas décadas e seus pais permaneceram no Maranhão, enquanto ele se mudou para a capital acompanhado da irmã.

 

“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista”.

 

Desde pequeno, Agnaldo já confeccionava carrinhos de madeira e peças em argila. Entretanto, a profissionalização no artesanato ocorreu após incentivo de guias turísticos que o direcionaram para a produção de fotos instantâneas. Com o tempo, já adulto, o artesão consolidou sua profissão ao conhecer a pedra-sabão, material posteriormente substituído pela resina devido à proibição motivada pela presença de amianto. Ele aprendeu a esculpir, montar as peças e aperfeiçoou a abordagem para vender seus produtos, questionando com bom humor: “uma lembrancinha hoje?”

 

Para Agnaldo, o artesanato é a expressão máxima da cultura local, sendo a primeira miniatura criada em homenagem à escultura Os Candangos, de Bruno Giorgi, instalada na Praça dos Três Poderes e originalmente com oito metros de altura. Em sua versão reduzida, o artesão relembra sua trajetória, da irmã e demais nordestinos que migraram para a jovem capital.

 

A Catedral de Brasília, também reproduzida por ele, apresenta desafios técnicos devido à complexidade das suas curvas. Apesar de considerar os arquitetos e escultores originais artistas incomparáveis, Agnaldo acredita que qualquer pessoa pode tentar reproduzir as peças, mas atingir o nível de perfeição exigido é difícil.

 

“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige”.

 

O padrão de qualidade das peças elaboradas individualmente por Agnaldo foi responsável por garantir o sustento de seus seis filhos, todos nascidos em Brasília. Sua rotina é intensa, com jornadas que começam de manhã e, em alguns dias, adentram a noite. Aos finais de semana, monta uma banca em frente à Catedral, onde permanece das 8h até por volta das 18h, ou enquanto houver movimento de turistas.

 

Comércio de miniaturas fortalece laços familiares e história de migrantes

Durante a semana, Agnaldo cede o ponto de venda em frente à Catedral a uma família de nordestinos. Nariane Rocha, natural do Maranhão e com 44 anos, passou a comandar a banca desde o falecimento do marido, Marcelino, vítima de câncer aos 64 anos no final do ano anterior. A nora, Michele Lima, de 42 anos e oriunda do Rio Grande do Norte, auxilia nas vendas e manifesta sentimento de segurança e desejo de permanecer definitivamente em Brasília.

 

Nariane e Michele residem em Novo Gama, cidade distante mais de 40 quilômetros da Catedral, e almejam abrir uma loja própria no futuro para escapar das intempéries e evitar o transporte diário das mercadorias. Em dias de chuva, ambas precisam agir rapidamente para cobrir as peças com plástico e, ao fim do expediente, transportar todos os itens até o veículo. O desejo de estudar também faz parte dos planos das duas, que sonham cursar psicologia devido ao interesse em compreender o público com quem convivem diariamente no comércio.

 

Diversidade de artesãos transforma a paisagem em frente à Catedral

Outros artesãos mantêm bancas ao redor da praça da Catedral. Alberto Correia, de 57 anos, originário de Paranã (Tocantins), reside atualmente em Itapoã, região administrativa do Distrito Federal. Ele recorda os primeiros momentos como artesão, polindo suas peças diretamente no chão, diante da Catedral.

 

Ao lado dele, Rodrigo Gomes, de 41 anos e natural de Anápolis (Goiás), trocou a profissão de mototaxista pela produção artesanal, através da qual recria a arquitetura de Brasília. Rodrigo confecciona obras que reúnem diferentes monumentos sobre uma base representando o mapa do Brasil, a qual denomina “Mapa Candango”. Ele ressalta que todas as etapas do processo são realizadas manualmente e reforça a necessidade de criatividade para atrair o público, destacando que cada miniatura tem o intuito de chamar atenção para a cidade enquanto monumento.

 

Além deles, Tânia Bispo, nascida em Salvador e atualmente moradora do Gama, iniciou a trajetória de comerciante vendendo água de coco. Atualmente, seu marido continua com essa atividade na praça, enquanto Tânia administra a banca de miniaturas, fonte de sustento dos quatro filhos do casal. Após três décadas na capital, a nordestina se considera parte ativa da construção da cidade. Ela compara sua antiga ocupação de diarista, que descreve como infeliz, à realização pessoal que encontrou em Brasília.

 

“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande”.

 

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